
Há violências que não gritam,
mas permanecem.
Instalam-se nos gestos repetidos,
nos olhares que diminuem,
nas palavras que, aos poucos,
vão retirando da alma aquilo que ela tem de mais inteiro.
Não deixam marcas na pele,
mas atravessam o invisível —
e é ali que mais doem.
O assédio não é um momento.
É um processo.
É a insistência em fazer o outro menor
até que ele próprio passe a duvidar de si.
E assim, o que antes era presença
vai se tornando silêncio,
o que era confiança
vai se tornando medo,
e o que era vida
vai se tornando resistência.
Mas há algo que não deveria nunca ser negociado:
a dignidade.
Porque nenhum trabalho,
nenhum cargo,
nenhum lugar
pode custar o desmoronar de quem somos.
Que a coragem comece no reconhecimento,
e que o respeito deixe de ser exceção
para voltar a ser o que sempre deveria ter sido:
o chão onde todos pisam.